Eu não sei se os visitantes de milanevez sabem que 'Por favor... desenha-me um carneirinho?' é uma fala extraída do livro O Pequeno Príncipe, de Antoine de Sait-Exupèry. Antes de explicar por que eu a escolhi, vou transcrever o trecho do livro.
Na primeira noite adormeci sobre a areia, a quilômetros e quilômetros de qualquer terra habitada. Estava mais isolado que um náufrago num bote perdido no meio do oceano. Imaginem qual foi a minha surpresa quando, ao amanhecer, uma vozinha estranha me acordou. Dizia:
-Por favor... desenha-me um carneirinho?
-O quê?
-Desenha-me um carneirinho...
Levantei num salto, como se tivesse sido atingido por um raio. Esfreguei bem os olhos. Olhei ao meu redor. E vi aquele homenzinho extraordinário que me observava seriamente.
(...)
Olhava para aquela aparição com olhos arregalados de espanto. Não esqueçam que eu me achava a quilômetros e quilômetros de qualquer região habitada. Ora, o meu pequeno visitante não parecia nem perdido, nem morto de fadiga, nem morto de fome, de sede ou de medo. Não tinha absoluta aparência de uma criança perdida no deserto. Quando finalmente consegui falar, perguntei-lhe:
-Mas... que fazes aqui?
Ele repetiu então, lentamente, como se tivesse dizendo algo muito sério:
-Por favor... desenha-me um carneirinho...
Quando o mistério é impressionante demais, a gente não ousa desobedecer. Por mais absurdo que aquilo me parecesse, tirei do bolso uma folha de papel e uma caneta. Mas lembre-me, então, de que havia estudado principalmente geografia, história, matemática e gramática, e disse ao pequeno visitante (com um pouco de mau humor) que eu não sabia desenhar. Respondeu-me:
-Não tem importância. Desenha-me um carneiro.
Como jamais houvesse desenhado um carneiro, refiz para ele um dos únicos desenhos que sabia: o da jiboia aberta e fechada. E fiquei surpreso ao ouvir o garoto replicar:
-Não! Não! Eu não quero um elefante numa jiboia. A jiboia é perigosa e o elefante toma muito espaço. Tudo é pequeno onde moro. Preciso é de um carneiro. Desenha-me um carneirinho.
Então eu desenhei.
Ele olhou atentamente e disse:
-Não! Esse já está muito doente. Desenha outro.
Desenhei de novo.
Meu amigo sorriu, paciente.
-Bem vês que isso não é um carneiro. É um bode, olha os chifres...
Fiz mais um desenho, mas ele foi recusado como os anteriores.
-Esse ai está muito velho. Quero um carneirinho que viva muito tempo.
Então, perdendo a paciência e como tinha pressa em desmontar o motor, rabisquei o seguinte desenho. E arrisquei:
-Esta é a caixa. O carneirinho que queres está aí dentro.
E fiquei surpreso ao ver iluminar-se a face do meu pequeno juiz:
-Era assim mesmo que eu queria! Será preciso muito capim para esse carneirinho?
-Por quê?
-Porque é muito pequeno onde eu moro...
-Qualquer coisa chega. Eu te dei somente um carneirinho!
Inclinou a cabeça sobre o desenho:
-Não é tão pequeno assim... Olha! Ele adormeceu...
E foi assim que conheci, um dia, o Pequeno Príncipe.
Eu li esse livro pela primeira vez aos nove anos de idade. Aos nove anos de idade você aprecia a história e imagina como deve ter sido estranho para o piloto encontrar um príncipe (um príncipe!) no meio do deserto. Aos dezesseis, quando reli, passei a ver o livro com outros olhos. Comecei a ler nas entrelinhas as lições que Saint-Exupèry queria nos passar... O poder da inocência, o amor incondicional, a verdade por trás de mentiras e o significado de um arrependimento verdadeiro. Desenha-me um carneirinho não tem penas o significado literal, significa também mostre-me o que você tem de melhor. Assim, todas as vezes que me deparo com alguém novo eu imagino com que tipo de carneirinho ela poderia me presentear. E, todos os dias sem excessão, eu me pergunto 'que carneiro vou desenhar hoje?' e consigo avaliar melhor o que se passa dentro de mim.
Conheci algumas pessoas que leram O Pequeno Príncipe e acharam a história idiota. Eu não briguei, não contestei. É preciso saber olhar para ver a beleza por trás das palavras... Como digo sempre, é preciso acreditar.
| o que você vê? |
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